sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Coletivo.

Quando percebeu, estava naquele coletivo imenso. Sentado e cercado de pessoas. As pessoas iam e vinham, passavam por ele sem notá-lo. Procurou alguns conhecidos mas, ou estavam distantes de mais ou não poderiam ajudá-lo. Que diferença fazia? Estava só. Ele e aquele sentimento de vazio. O coletivo andava rápido, as coisas passavam e ele nem via acontecer. Algumas ainda davam para antecipar, mas muitas... Muitas mesmo... Passavam. Simplesmente passavam. Não era possível precisar se ele estava apenas distraído, se aquela era a natureza dele ou se as coisas era difíceis de ver, mas a verdade simples e fria é que aconteciam... E passavam...

O vazio instalado dentro dele só aumentava, ele estava angustiado. O coletivo continuava a andar independente do que se passava, do que ele sentia, independente dele...

Teve a idéia genial, levantou e bradou a plenos pulmões:

- Ô chefia... Para o mundo no próximo ponto, por que eu preciso descer...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Estréia.

Estava animado. Acordou cedo, se arrumou, andou de um lado para o outro, inquieto. Era o dia da estréia. Faziam meses que ele queria ver aquele filme, sessão única. Não sabia se conseguiria ingresso, e ao contrário do que muitos falaram. Conseguiu. Olhou para o relógio, achou melhor chegar cedo. Foi na direção do cinema. Antes de entrar fez todo o ritual de base. Pipoca, refrigerante, chocolates... Tudo. Chegou a hora, entrou na sala, pegou seu lugar, que ele considerava que era o melhor, sentou, preparou as guloseimas. Sorria, gostava daquilo tudo. As luzes se apagaram, ele mordeu o lábio inferior. O filme começou, e o sorriso se alargou.

Passaram 15 minutos de filme, a tela apagou, as luzes se acenderam e as portas abriram. Ele ficou parado, sem entender nada. O filme estava no meio, mal tinha começado e já estava terminado. Sem pé nem cabeça, sem fechamento, sem desenrolar da história.

Olhou para os lados, ainda tentando entender o que acontecia e não sabia se saía ou se ficava esperando para ver o que acontecia...

Só tinha certeza que queria ver o resto do filme.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Refletindo.

- Olha ! Olha o que eu to falando.... Parece que ela não quer ir embora!

O rapaz apontava para o casal que estava numa mesa pouco distante da deles.

- Ela fica mexendo nas chaves... Como se procurasse um motivo!

Ele riu divertido, achando engraçado o jogo que o casal da mesa ao lado jogava. Ele prestava atenção nos movimentos dos dois apontando cada sinal de interesse de ambas as partes. Como os dois estavam sentados, como o homem da outra mesa olhava para a mulher da outra mesa, até os pequenos movimentos, como um toque desastrado de mãos ou um chute por baixo da mesa. Ele não deixava passar nada. Sorria, apontando todos os momentos.

- Vamos cara, dá um motivo para ela ficar!

E ele já tomava partido. Torcia pelo rapaz. Tinha gostado da cara dele. Pensou que podia ser um cara gente fina. E eles conversavam, ambos com sorrisos estampados no rosto. Parecia que eles estavam apreciando a companhia um do outro. E nesse tempo que ele observou, ele pode notar que o casal ao lado passou por um momento de silêncio.

- Ih rapaz... – ele falava como se explicasse a situação para a pessoa que dividia a mesa com ele -

- Parece que eles chegaram num momento chave. Se ela for embora, ele entende. Se ela ficar... Ele parece ter um plano.

E ele olhou para a pessoa com a qual dividia a mesa. Arregalou os olhos, olhou para o casal da mesa ao lado e só então se tocou.

Ele olhava para um espelho.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Scrap.

Um passo atrás do outro. Era assim que ele se comportava a medida que andava naquela calçada a beira-mar de um dia de chuva. Ventava, fazia frio, as ondas arrebentando nas pedras e ele era a única alma viva que caminhava por ali. Na rua, o céu era refletido pelo pequeno espelho d’agua que se formava sobre o pavimento e algumas vezes, ele via o próprio rosto refletido. Isso fazia ele torcer o nariz. Não queria se ver. Algum sentimento aversivo que seu reflexo trazia. Nada de mais, ele teimava em mentir para si mesmo. Caminhava de cabeça baixa, chutando pedrinhas, ensaiando conversas na sua cabeça, criando um roteiro de como agir em determinadas situações, que no fundo ele sabia que não aconteceriam ou que ele não agiria da forma recém ensaiada. Viu seu reflexo mais uma vez em poça de água. Torceu o nariz e fez questão de pular com os dois pés nela. Bufou e voltou a caminhar. Seu olhar não era totalmente para o chão, mas não era reto. Era como se mirasse o chão a uns 6 ou 8 metros a frente. Olhar de gente que não sabe o que fazer. Parou, se virou na direção do mar e caminhou pela areia. Se abaixou, pegou um galho deixado ali caprichosamente pelas forças do destino e começou a brincar com o solo. O olhar estava no oceano vendo as ondas que não se decidiam. Qualquer semelhança não era mera coincidência. Suspirou, fechou os olhos. O risco de que aquela quantidade de água pudesse refletir mais uma vez o rosto dele o fez fugir disso. Foi quando ele sentiu algo na sua perna esquerda. Olhou para baixo e lá estava um cachorro, empurrando areia em cima dele com as patas traseiras. Ele ficou alguns segundos em choque enquanto o cão se afastava lampeiro. Sorriu, riu, gargalhou.

Era apropriado.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Na Colina.

- E sabe, é o jeito que você me olha que diz pra mim que isso ainda não acabou.

E essa foi a última frase que eu falei para ela naquele dia, no alto daquela colina. Nos olhamos mais um pouco, ela tinha um largo sorriso no rosto. Um rosto deveras bonito, gostaria de adicionar. De qualquer maneira, ela me deu um beijo na testa, virou de costas e saiu descendo a colina. E eu? Fiquei sentado como um pastel, igual a todas as vezes que a gente se encontra naquele mesmo lugar e passa horas a fio conversando, como se tudo fosse ótimo, exceto pelo fato de que ela fica de um lado e eu de outro. Tenho a ligeira impressão de que seria melhor se estivéssemos no mesmo metro quadrado. Mas é só uma impressão....... Ok ok, sarcasmo não é minha melhor qualidade. Mas é o modo que eu uso para trabalhar minhas frustrações. E enquanto eu penso nisso tudo ela continua se afastando. Olhando vez ou outra por cima do ombro, mas isso logo para quando passa aquela motocicleta. E nela, ele. Eu olhando, ela sorrindo – para ele – e ele feliz da vida, com a moto, a garota e o que mais ele tiver que é melhor do que o que eu tenho. Ela o abraça com força, sobe na garupa e ele sai com a moto. Ela me olha, com aquele largo e belo sorriso no rosto, me dá tchauzinho e vai embora. Nesse aceno eu sei que está implícito um “te vejo semana que vem”. E vamos nos ver, e eu vou continuar tendo aquela impressão.

Bom...

- Éééé garota... Continua dançando...

sábado, 17 de abril de 2010

Run.

Corria sem olhar para trás. Corria com toda sua força para frente. Sons de tiro, buracos de bala nasciam a sua volta, mas ele não parava. Desafiava os limites do seu físico naquela corrida desembestada, como se sua vida dependesse daquilo.

Dependia?

Algo explodiu atrás dele jogando o corpo do jovem pra frente. Rolou alguns metros, mas logo se levantou. Sem nem pensar, era mais do que força de vontade, aquilo se tornara um ato reflexo. Caia, levanta e ia pra frente. Mais tiros a sua volta, mais explosões atrás, aos lados, na frente... E no final das contas, só restava ele, correndo pra frente com toda sua força. Suava, ofegava, até se atrevia a mancar em alguns momentos mais tensos, quando torcia o pé de leve pisando em buracos na grama. Mas nada o parava. Corria como se não houvesse amanhã, não se preocupava em guardar energias para a volta, só corria... Pra frente...
Não olhava para trás, não olhava para os lados, e cá entre nós não sei nem se olhava para frente...

O que nos deixa na dúvida: Fugia ou tentava alcançar?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Porta.

Estavam os dois parados. Olhavam para a porta fechada, um ao lado do outro. A porta estava presa a uma parede antiga, pintada de branco, que hoje mais parecia um bege de tanta sujeira. A porta era grande, de madeira maciça com entalhes bonitos e uma grande maçaneta dourada. Tudo coberto com uma grossa camada de poeira.

De um lado estava Ele, com uma calça jeans, uma camisa branca surrada barba por fazer e um rosto cansado.
Do outro, Ele Mesmo, vestindo calça jeans, uma camisa colorida, um chapéu de cowboy e um charuto no canto da boca.

- Tem certeza que está aí ?! – Perguntou Ele Mesmo.

- Claro que tenho. Me lembro muito bem de ter fechado essa porta correndo. – Falou Ele, enquanto cutucava a parte interna da bochecha com a língua.

-Bom... – Coçou o nariz – Realmente parece que essa porta não abre tem um tempo... Você nunca mais abriu ?! – Olhou para ele com o olhar indagador, segurando o charuto entre os dentes enquanto deslizava a palma da mão pela porta, procurando sentir a textura da madeira e deixando as marcas da mão, passando pela poeira.

- Claro que não... Eu já disse. Você não faz idéia do tamanho da coisa que tem aí dentro. É enorme... O máximo que eu fiz foi encostar a orelha na porta, mas eu juro que ouvi a coisa rugir e então, saí de perto... – Ele falava com bastante receio e o arrepio nos pelos do braço revelava que era a verdade.

O outro gargalhou.

- Mas você é uma vergonha mesmo... – Segurou o charuto entre o polegar e o indicador enquanto balançava a cabeça negativamente. Parecia estar se divertindo – Aposto... Que não é nada de mais.... – apontou para a porta com o charuto.

- Isso, vai rindo... Aquilo não correu atrás de você, não é?! – Ele parecia contrariado. Seu companheiro estava fazendo pouco caso de algo que aparentemente para ele era grande.

- Oras, é muito simples, meu caro Watson... Se você tivesse saindo correndo, teria deixado a luz a acesa... – Apontou, mais uma vez com o charuto, a fresta entre a porta e o chão. Estava escura.

- Erm... É que eu sou ambientalmente correto ?! –Falou sem muita convicção.

- Que seja... Agora chegou a hora... – Prendeu mais uma vez o charuto com os dentes, largou a mochila no chão, revirou lá dentro até puxar uma lanterna. Apertou o botão, mas ela não acendeu. Franziu o rosto, deu uns tapinhas na lanterna até a luz aparecer. Sorriu levemente, ofereceu a lanterna para Ele e piscou – Vamos descobrir a verdade, Indiana Jones ?

Ele pegou a lanterna um tanto quanto hesitante. – Você não vem?!

-Eu ?! Tá maluco ?! E eu lá quero ser devorado ?! Boa sorte ! - Tocou de leve na aba do chapéu, como um cowboy que se despede, sorriu com o charuto preso entre os dentes e ficou esperando Ele ir.

Ele por sua vez respirou fundo, se virou para a porta, colocou a mão na maçaneta e girou.
– Seja o que for pra ser...

Entrou.